O ANDARILHO

“O passado não me ofusca, nem o futuro me motiva. Concentro-me no presente, porque é nele que estou destinado a viver. ” (Autor desconhecido) 

Andando pelas ruas de São Luís sempre encontro, nas adjacências da Av. São Luis Rei de França, um jovem, moreno, de estatura mediana, descalço, de calção, sem camisa – a caminhar pelas calçadas e pistas quentes do meu torrão.

De semblante triste, mas sempre com os passos puxados de uma perna doente, com os pés sempre embrulhados por pedaços de pano sujos. Pelo que observo há algum tempo aquela ferida não cura – seja pela falta de cuidado, limpeza e tratamento ou malignidade que possa ter tomado conta daquele corpo sofrido. 

Eram dois andarilhos que se revezavam pelas ruas nas andanças da vida solitária. Este e aquele de cabelos “rastafári” compridos, sua marca registrada. Nunca mais vi aquele andarilho. A última vez que tive notícias dele foi pela televisão quando o noticiário informava que ele estava num hospital de São Luís, já apareceu de cabelos cortados, como se fora um militar – recuperando-se de uma enfermidade no leito daquela enfermaria. 

“Um bom viajante não tem planos fixos nem tampouco a intenção de chegar. ” (Lao-Tsé)

O que me fez pensar: por que tantos homens sofrem abandonados, solitários e não há quem se solidarize com eles? Nem mesmo eu, que apenas descrevo as mazelas destes, mas, de verdade nada fiz para ampará-lo ou ajuda-lo a minimizar o seu sofrimento. Estamos tão insensíveis ao sofrimento dos outros, como se fossemos semideuses numa clausura blindada pela soberba, egoísmo que nos transforma em verdadeiros pagãos de coração de pedra, num mundo de miseráveis que estão à espera da nossa solidariedade. É a nossa união que pode salvar a humanidade.

“Se ao acordar posso escolher uma roupa, posso escolher também o sentimento que vai vestir o meu dia.” Maria de Queiroz

Hoje estou acompanhando a minha mulher acometida de infecção intestinal internada no Hospital São Domingos. 

Quando almoçava no Restaurante “Puro Sabor”, ao lado do hospital, o andarilho passou novamente. Onde será que ele vai? O que pensa esse homem? Será que ele já se alimentou hoje? 

Eu estou de barriga cheia. Ao vê-lo pedi um pedaço de papel para o atendente de caixa Henrique e emocionado com a situação daquele homem, me deleitei na escrita desta crônica que dedico a todos os andarilhos do planeta terra.

“Nascemos sem trazer nada. Morremos sem levar nada. E no meio brigamos por algo que não trouxemos nem levaremos. ” (Jhone Remidf). Enquanto, milhões de pessoas em todo o mundo não têm o que comer, vestir e um teto para se abrigar. 

A minha voz ecoa versos enquanto o andarilho demonstra na face a incerteza do próximo passo e uma dor que não parece cessar, não sei se é sofrimento ou angústia. O meu coração perdido nas letras tem esperança de dias melhores para os viajantes solitários das ruas do nosso Brasil. Se não há quem possa ajudá-lo, aqui ponho um ponto final nesta história.

“É a diferença que fazemos na vida dos outros que determina a vida que levamos. ” Nelson Mandela

(*) José Carlos Castro Sanches, químico, professor, escritor, cronista e poeta maranhense.

Visite o site: falasanches.com e, a página Fala, Sanches (Facebook) e conheça o meu trabalho como escritor, cronista e poeta.

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