Anacronismo Crônico - Tempos Modernos


Hoje em dia, com o avanço da tecnologia, a necessidade de informação rápida e a banalização do desrespeito ao espaço pessoal alheio, acabam criando algumas situações que há bem pouco tempo não eram comuns no nosso dia a dia. O celular, por exemplo. Antigamente as pessoas só eram encontradas no trabalho ou em casa, através dos quase hoje extintos telefones fixos. Se havia alguma emergência, não tinha jeito, tinha que esperar a pessoa estar em algum lugar com telefone pra poder ligar para ela e tratar do assunto.

Mas com o advento da telefonia móvel, a pessoa pode facilmente ser contatada em qualquer lugar e de lá mesmo resolver os tais problemas urgentes ou somente bater papo. Mas aí é que está o problema, é que quando se diz 'qualquer lugar' quer dizer 'qualquer lugar mesmo'. Na rua, restaurante, escola, mercado, ônibus e até no banheiro. Digo isso porque certa vez eu estava no banheiro aqui da empresa e notei que de dentro de um dos boxes, alguém (entre alguns gemidos forçados e espremidos e outro) travava uma discussão acalorada com outra pessoa do outro lado da linha... Será que os assuntos de hoje em dia não podem nem esperar a pessoa terminar de cag... Bom, de ter seu momento consigo mesmo em paz?

No ônibus então, é outro desastre. Sem contar aqueles ‘sem-noção’, metidos a Dj's de gosto musical pra lá de duvidoso que colocam seus celulares  no mais alto volume, nos impondo a escutar a contra gosto as tais "Play-Lists" a viagem inteira. Ainda tem aqueles que atendem ao telefone e conversam como se estivesse sentados na sala da casa deles. Falando alto, expondo intimidades que não competem aos outros passageiros do coletivo participar... Outro dia levei um susto quando uma mulher, creio que irritada por a outra pessoa na linha não entender o que ela dizia, gritou "- OS OVOS, FULANA... ATÉ OS OVOS!" várias cabeças viraram em direção à mulher ao telefone, muitas dessas imaginado nos ovos de quem, que ela estava falando. Sei lá! Prefiro pensar (apesar de não ter ouvido o contexto do assunto) que ela estaria falando que tudo hoje em dia estava caro... "Até os ovos"...

Por essas e por outras é que não atendo telefone no ônibus. Prefiro enviar mensagens de texto, e ficar rindo sozinho ao ler as respostas dos meus papos virtuais e silenciosos, enquanto tento disfarçadamente esconder o visor das vistas do passageiro ao lado que de pescoço e olhos compridos, tenta ver o que tanto leio e escrevo no meu celular.

Jaime J Junior, é Designer Gráfico, Escritor
TAG