Camiseta Vermelha


“Quando se diz que um escritor está na moda, isso quer dizer que ele é admirado por menores de trinta anos. ” (George Orwell)

Relaxem que não vou tratar de questões políticas. Vou contar um fato curioso que ocorreu comigo e, me fez lembrar de uma fase importante da minha vida – quando saí de Rosário no interior do Maranhão para estudar em São Luís e fui acolhido pela família de Hermógenes Rocha, esposa e filhos, na Rua Henrique de La Roque, Bairro de Fátima.

Dedico esta crônica a Hermógenes Rocha (em memória), homem trabalhador, vaqueiro, natural do povoada de Zé Pedro, outrora município de Rosário, hoje Bacabeira. Especialmente à sua filha Rosimar Rocha, aquela que cuidava de mim com muito carinho, e tinha a preocupação com o meu alimento, roupa lavada e gomada. Meu muito obrigado especial.
              
Na noite passada, sai com a minha esposa para curtir uma boa música, num ambiente agradável que ela aprecia muito na Avenida Litorânea em São Luís-MA. Estávamos nos sentindo bem naquele lugar ao ponto de extrapolarmos o tempo de permanência, como nunca antes tínhamos feito, chegamos à 22h e saímos as 2h. Como eu sabia que estava livre no dia seguinte, que seria um sábado, me dei ao luxo desta aventura, apesar de detestar perder sono.

Amanheci dormindo, quando de repente escutei a gritaria e vi o meu quarto invadido por minha esposa, filhas e netos que nos visitavam – eu ainda estava dormindo e acordei desnorteado – normalmente me sinto saciado do sono quando durmo de 7 a 8 horas, seguidas – menos que isso, é certeza de mal humor e cansaço, no dia seguinte.

Dormia com uma calça de tactel preta e uma camiseta de algodão vermelha – parecia um flamenguista após um jogo da melhor equipe de futebol de campo do Brasil, ainda comemorando a vitória do seu time predileto.

“O estilo nunca sai de moda, a felicidade também não. ”  (Tumblr)

Quando Danielle me viu com aquela camiseta logo disse: “Pai, essa camiseta o Senhor usa desde quando eu era criança, há mais de trinta anos. ” De verdade, tenho algumas roupas que me acompanham por longas datas, às quais tenho um apego muito grande; outras ficam mofando no guarda-roupa e não uso, enquanto aquelas são relíquias inseparáveis. Não sei bem o motivo de gostar tanto delas – talvez já tenham incorporado o meu DNA e passaram a fazer parte de mim – sem mesmo eu perceber.

“Quando, afinal, nos acostumamos com uma moda é porque ela já está completamente em decadência. ”  (Millôr Fernandes)

Aquela simples pergunta ao acordar, numa manhã nublada, me fez voltar ao passado e lembrar-me – que comprei esta camiseta – provavelmente no ano de 1979, numa loja chamada “Mara Sports” se não estou enganado, na rua da paz, no centro de São Luís.

Então, minha filha, não são apenas 30 anos, são 40. Fiquei impressionado com a qualidade do tecido desta camiseta, que consegue durar décadas – e ainda se mantem – escarlate forte e firme, indesbotável.

É lógico, que não a uso diariamente afinal, existe inúmeras opções, mas o fato é curioso. Ela continua sendo a minha preferida sempre que posso escolher. Amor à primeira vista que permanece para sempre.

“Sou contra a moda que não dure. É o meu lado masculino. Não consigo imaginar que se jogue uma roupa fora, só porque é primavera. ” (Coco Chanel)

Lembro também que comprei ao mesmo tempo, outras três camisetas, que um pouco mais justas ao meu corpo de jovem esbelto, caíram em desuso após eu ter adquirido alguns quilos na fase adulta. Estou certo de que estas camisetas ainda permanecem, entre as demais roupas que não uso, no fundo das gavetas da cômoda ou no guarda-roupa da minha casa.

Essa é uma dificuldade que preciso superar – aprender a me desprender e desapegar das coisas materiais que possuo como: roupas, livros, cadernos, objetos de uso pessoal, imóveis, carros, dentre outros. Numa outra crônica que intitulei “Sou acumulador, mas a culpa não é do meu avô” conto um pouco sobre essa oportunidade.

“A maneira de falar e de escrever que nunca passa da moda é a de falar e escrever sinceramente. ”  (Ralph Waldo Emerson)

Me dispersei contando detalhes agora volto ao tema. Comprei a camiseta vermelha quando morava no Bairro de Fátima com a família Rocha, que me acolheu com carinho para estudar o ensino médio em São Luís. O meu pai não tinha onde me hospedar e pediu ao seu compadre Hermógenes para que eu ficasse com a sua família, até que ele conseguisse comprar uma casa em São Luís.

Assim foi feito, morei por um ano naquela casa, e, todos os dias levantava cedo e seguia para o Colégio Ateneu Teixeira Mendes – onde estudei o ensino médio (à época segundo grau). Depois avancei para os vestibulares da vida obtendo êxito em diversos deles, na UFMA e UEMA onde estudei posteriormente e me graduei. Nas crônicas: 55 anos de superação; O que você quer ser quando crescer?  Conto em detalhes essa história.

Lembro-me com clareza de que era estudante profissional e estudava com afinco. Como se fosse algo sagrado, todos os dias, ao chegar do colégio, tomava banho, almoçava e sentava à mesa da copa daquela casa simples que marcou a minha vida – e ali me aprofundava nos estudos.

“As pessoas não carecem de força, carecem de determinação. ” (Victor Hugo)

Era admirável a minha dedicação, determinação – eu tinha muita energia, sabia onde queria chegar e não arredava os pés um milímetro daquele caminho. Tanto que dentre os alunos da minha turma no Ateneu Teixeira Mendes, passei a ser destaque – não pelas notas, que apesar de todo o meu esforço, nem sempre eram 10. Mas, pelo comportamento, interesse e dedicação aos estudos -  passei a ser uma referência para alguns professores e colegas de classe – ao ponto de sempre me convidarem para estudarmos juntos – e por inúmeras vezes terem ido para a minha casa (depois que sai do bairro de Fátima e fui morar na Travessa da Fortuna, próximo ao Bom Milagre, em Monte Castelo) para esclarecer as dúvidas sobre os conteúdos aplicados em sala de aula. Destacaram-se nestes encontros frequentes Celson de Jesus Moreira Feques e José de Ribamar Santana. O primeiro tornou-se meu amigo; o segundo enveredou (aventurou-se) na política, e, tomou rumo ignorado, distanciando-se dos amigos de outrora, nunca mais o vi.

“Nada existe tão alto que o homem, com força de vontade, não possa apoiar a sua escada. ”  (Friedrich Schiller)

Depois casei com uma mulher maravilhosa, tivemos juntos três filhas, e tenho também um filho. Hoje somos avós de três lindos netos – cada filha nos presenteou com um filho, até o presente momento. (Atualizado em 04.06.2020: Hoje temos 4 netos: Julie, Rafael, Leonardo Davi e Amelie que nasceu em 2020, após a publicação desta crônica).

Sempre disse para as minhas filhas que estudassem, buscassem primeiro uma formação superior, seguida de um emprego, depois um homem a quem amasse para se casarem. Assim fizeram. Nesta missão sinto-me com o dever cumprido, feliz e realizado como pai e avô.

Por outro lado, tenho um filho concluindo o ensino médio – ao qual oriento para estudar mais. Digo sempre para ele, que não se compara o tempo de estudo e dedicação que eu tinha na época de estudante e ainda tenho como profissional - com o tempo que ele dedica ao estudo.  Talvez ele seja mais inteligente que eu, e não precise de tanto tempo dedicado ao estudo – mas isso só será comprovado com o tempo. (Atualizado em 04.06.2020: o meu filho Carlos Daniel foi aprovado no vestibular para Jornalismo na UFMA e aguarda o final da quarentena imposta pela pandemia do coronavírus para iniciar o curso)

“O homem para ser completo tem que estudar, trabalhar e lutar. ”  (Sócrates)

Extrapolando o meu entendimento sobre a maneira como vejo o comportamento da maioria dos adolescentes, chego a pensar que a minha percepção de mundo, quando na minha juventude era diametralmente oposta da atual.

Os jovens desta geração, em sua maioria, parecem entender que as coisas cairão do céu por descuido e abruptamente conquistarão tudo o que desejarem. Querem sempre as melhores roupas, os melhores sapatos, o melhor celular, a melhor cama para dormir, o melhor sofá para assistir televisão, o melhor computador para ver os filmes no YouTube ou usar a internet para outros fins. Querem também dinheiro no bolso para os passeios nos shoppings, viagens e lanches caros do Bob's, McDonald's e outras lanchonetes e restaurantes famosos. Mas, esquecem que precisam dormir menos, estudar mais; não perder tempo com TV, celular e WhatsApp e futilidades, e, dedicarem-se aos seus propósitos.

“Se você empregasse seu tempo em estudar, pensar e planejar todos os dias poderia desenvolver e usar o poder que talvez mudasse todo o curso do seu destino. ” (Desconhecido)

Precisam também usar as camisetas vermelhas por mais tempo, ainda não são capazes de trocarem de roupa a cada saída, sequer pagam os seus próprios lanches – e, ainda, querem usar as melhores marcas de roupas e tênis.

“A moda, afinal, não passa de uma epidemia induzida. ”  (George Bernard Shaw)

 Não conquistamos os nossos objetivos apenas com a fantasia de que tudo vai dar certo sem esforço, trabalho árduo e muito estudo. Os vencedores serão aqueles que mais investirem o seu precioso tempo em benefício do que acreditam ser o diferencial para a sua vida.

“A juventude é a época de se estudar a sabedoria; a velhice é a época de a praticar. ”   (Jean-Jacques Rousseau)

Acredito que nada é mais relevante para o sucesso pessoal e profissional do que investir no conhecimento. A única forma de conseguirmos superar os desafios é estudando diariamente, seja como se libertar dos desapegos à camiseta vermelha; das coisas guardadas a longos anos ou buscando conhecer novas tecnologias; abrindo a mente para as possibilidades de um mercado que exige a cada dia maior qualificação e competência para realizarmos com sucesso a missão a que nos propomos. O nosso maior desafio é compatibilizar realização pessoal e profissional. E ser feliz com as nossas escolhas.

“Oportunidades não surgem. É você que as cria. ” (Chris Grosser)

José Carlos Castro Sanches
É químico, professor, escritor, cronista e poeta maranhense.
Membro Efetivo da Academia Luminense de Letras.



São Luís, 05 de janeiro de 2019. 

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NOTA: Esta obra é original do autor José Carlos Castro Sanches e está licenciada com a licença JCS05.01.2019. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas. Esta medida fez-se necessária porque ocorreu plágio de algumas crônicas do autor, por outra pessoa que queria assumir a autoria da sua obra, sem a devida permissão – contrariando o direito à propriedade intelectual amparado pela lei nº 9.610/98 que confere ao autor Direitos patrimoniais e morais da sua obra.
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