Coluna Soco no Muro: As secretas razões da loucura

O Portal TORDESILHAS e o blog LITERATURA LIMITE
(www.literaturalimite.blogspot.com.br) trazem hoje três textos inéditos, partes do meu livro em preparo UM SOCO CONTRA O MURO. Pequeninas fábulas morais ou espirituais.
O resto, como eu mesmo digo, é socar contra o muro da ignorância humana e da sordidez política. Sejam bem vindos.


 Havia um Reino Encantado, num lugar de todos desconhecido, cujo Rei era um louco.
         Seus editos, determinações e leis eram frutos de pequenos e esparsos momentos em que lhe sobrevinha a sanidade – diziam.
         Nenhuma lei era injusta. Nenhuma determinação era contrária a qualquer lei da natureza ou dos homens. E os editos agradavam a súditos e vassalos, religiosos e militares, artesãos e comerciantes, nobres e plebeus, ricos e pobres.
         Era um Reino feliz onde todos eram felizes.
         O que ninguém sabia, e jamais poderia sequer imaginar, era que leis, editos e determinações, embora fossem promulgados naqueles instantes em que a razão dominava, eram todos concebidos, pensados, criados exatamente durante a sua loucura.  

NUVENS ESCURAS TOLDARAM O CÉU

         Numa radiante manhã de sol o viajante e peregrino seguia por uma estrada florida e perfumada.
         Podia ouvir, mesmo que fosse ao longe, o cantar mavioso de algum pássaro, o sussurrar das águas de um riacho, pelo qual passou com o coração cheio de doçura e encantamento, e os silvos de folhas nas árvores trazidos pelo vento.
         Caminhava contrito e alegre: seu cajado era sua única arma, com a qual enfrentaria alguma fera que aparecesse repentinamente a sua frente, e levava também seu farnel composto de algumas frutas, mel e fatias de pão integral.
         Enquanto andava, seu passado, em forma de lembranças, emergiu de dentro de si trazendo-lhe preocupação e insossego. A estrada ficava cada vez mais estreita, parecia-lhe que o céu escurecia e que logo uma tempestade o alcançaria. E até murmurou em voz baixa para si mesmo:
         – Nuvens escuras toldam o meu céu...
         Mas não havia nuvens, muito menos escuras. Ao olhar novamente para o céu e para fora de si a manhã continuava radiante e alegre e o sol brilhava em todo o seu esplendor.
         E soube: aquelas nuvens escuras eram apenas os seus pensamentos.

OLHANDO ALÉM DAS APARÊNCIAS

         Ao sentir que o peso dos anos lhe curvava a espinha e que o seu tempo de provações na terra se esgotava, o homem subiu a montanha.
         Procurava no alto daquele monte uma espécie de sábio e vidente que ali habitava. Era, como se diz, um perito, um especialista em desvendar o ser humano, mesmo que este procurasse guardar, da forma mais secreta, certo segredos.
         Procuravam-no todo tipo de pessoas: ricos, pobres, gordos, magricelas, angustiados, confiantes, humildes, orgulhos, desesperados e esperançosos. Mas todos com um único objetivo: ouvirem o veredito a respeito de si mesmos e qual destino teriam, após serem carregados pelos braços da morte para o lado invisível do mundo e das coisas.
         Seu método era simples e seguro. Não fazia perguntas. Apenas olhava fixamente, por alguns segundos, o visitante para ver se este baixava ou desviava o olhar do seu ou se permanecia também olhando-o firmemente.
         O dom especial do vidente é que aquele que o consultava via-se a si mesmo no olhar do sábio, e passava a se reconhecer como realmente era por dentro, sem máscaras ou fingimento.
         Pois, sentenciava o eremita do alto da montanha: “nem todos se reconhecem ao olharem-se no espelho interior”.


(*) Raimundo Fontenele, Poeta, Escritor.
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