O ANTROPONAUTA VIRIATO GASPAR

 

O Portal TORDESILHAS e o blog LITERATURA LIMITE (www.literaturalimite.blogspot.com.br) chegam nesta primeira semana de agosto com mais uma matéria para se inscrever nas páginas da atual literatura maranhense.

         Correndo o risco de tornar-me um blogueiro bissexto (bissexto porque tem sido um parto difícil parir uma postagem) fui à cata de alguma coisa essencialmente nova em termos de poesia e acabei chegando ao refúgio deste meu grande irmão e amigo Viriato Gaspar, o poeta tão essencial ao Movimento Antroponáutico quanto os outros 4 que lhe fizeram companhia: Cassas, Chagas Val, Valdelino Cédio e este escriba menor.


Escrevo isso porque tomei conhecimento de que alguém cujo nome me escapa referiu-se a nós como a geração de Luís Augusto Cassas. É um tremendo erro, engano ou..., deixa pra lá, o próprio Cassas, de quem conheço a humildade humana e a honestidade intelectual refutaria tal assertiva.

A nossa geração é a GERAÇÃO ANTROPONÁUTICA da qual todos nos orgulhamos. Nós afundamos navios de cascos avariados, detonamos velhas pontes de madeira a quem o cupim destroçava, e os grandes nomes da literatura maranhense naquele momento, Nauro, Zé Chagas, Arlete, Jomar, Nascimento de Moraes, Bandeira Tribuzi, Carlos Cunha, Domingos Vieira Filho, Alberico Carneiro e outros nos reconheceram os méritos e nos fizeram as honrarias merecidas, publicando 2 antologias e estendo um imaginário tapete voador por onde desfilamos a nossa tola vaidade juvenil. 

Portanto, o Soco no Muro nesse blog de hoje é o poeta Viriato quem dá.

CONVITE

Dancemos.

Agora,

Quando a noite se espicha pelos dias

E as trevas se enredam em cada alma,

Dancemos.

Dancemos,

Agora,

Quando o abraço se tornou uma ameaça

E o beijo é quase uma condenação à morte,

Dancemos.

Dancemos na varanda, no quintal,

No banheiro, no quarto, na cozinha,

No deserto de cada um preso em sua casa,

Contra o vírus do medo que avança sobre nós,

Dancemos!

E cantemos.

Agora,

Quando há ódios espumando nas esquinas

E mãos que fazem gestos nos matando,

E há tanta raiva vindo pelas telas,

Tecendo teias em cada celular e coração,

Cantemos.

Sim, cantemos!

Mais que nunca,

Cantemos.

Até que o sol acorde e chame a aurora

E possamos entregar nas mãos de nossos filhos

Um mundo que consiga se abraçar

E transmutar em canto, em dança e riso

A dor que desabou em nossos dias

E colocou ferrolhos em nossos gestos,

E pôs medo em nossos braços e sorrisos

E nos distanciou do que já foi nosso melhor:

- O (n)osso humano.

- O Hermano.

Este é o que podemos chamar poema sobre fatos concretos, aí, sim, um poema verdadeiramente concreto, mas nada daquela estética que se chamou concretismo subsiste aqui. Na verdade o concretismo pouco deixou de concreto, em alguns casos soou como um verdadeiro engano, e momentos há em que nada mais abstrato do que muitos dos tais poemas concretos.

E ao iniciar seu poema convidando-nos para a dança, convite repetido outras vezes durante o desenvolver do poema, noto naquilo que está implícito no poema e que é sua grande força, a insuspeitada metáfora invisível, que na verdade é uma dança dos desesperados em meio a um caos, não esqueçam, programada por mãos humanas e tiranas.

Por isso, o poeta Viriato nos convida para a última dança, o último canto, uma vez que todas as outras manifestações foram suprimidas do encontro e do calor humano: o abraço forte e o beijo sincero entre irmãos, amigos, namorados, noivos, casais, companheiros.

É como se o poeta repetisse Jesus com outras e novas palavras: Pai, afasta de mim esse vírus. E não é esse bichinho chinês, é um outro maior, do qual esse corona é apenas um filhote ou uma pequena larva: é o vírus que veio das trevas e das regiões mais sombrias e diabólicas da mente do homem.

DIZER-TE

Repara:

A palavra que dizes

não é a coisa dita.

A pedra nunca é a

própria dita,

pedaço de rocha, sílica,

duramente petra,

nunca rosa.

O sol que encharca o céu

de quanto dizes

inunda de ouros velhos

de outros trigos

a lâmina que ocultas

no que falas:

- quintal de cicatrizes.

A pedra de que falas

voa, plana, pluma,

flama.

Aquece o coração de quem a

chama.

Sempre quando nos arvoramos em crítico ou ensaísta de uma grande arte, como sói acontecer com a poesia de Viriato Gaspar, geralmente nos tornamos menor do que já somos. E por isso costumamos chegar usando uma bengala metonímica na qual nos apoiamos, para, em se caindo, não cairmos sozinhos.

Dei de cara logo com uma semelhança: o uso das palavras pedra e pluma neste poema remeteram-me direto para João Cabral de Melo Neto. Mas não foi só isso. A concisão da fala e dos versos, a dureza metafórica que imprime à linguagem no seu canto mais puro, mais lapidado, mais carregado de múltiplos significados faz deste poema do Viriato irmão dos melhores do poeta pernambucano.

Mas é só isso: “O sol que encharca o céu / de quanto dizes / inunda de ouros velhos / de outros trigos / a lâmina que ocultas / no que falas: / - quintal de cicatrizes.”, embora João Cabral assinasse embaixo, é a quinta essência da excelência formal e conteudística que Viriato imprime em sua arte. Sempre foi assim. Um poeta que amadureceu no duro aprendizado da pedra e que chega à maturidade poética com a leveza da pluma que nos encanta.

MUSEU DE ASSOMBROS

Chegou-me o tempo de chorar por tudo.

Olhar pra trás, doendo as mãos vazias.

Gastar os olhos contra o umbreu dos dias.

Rilhar os dentes, lagrimundo escuros.

Sempre em tudo que amei nada foi cheio.

Houve sempre uma nuvem, um pé de vento,

Um fosco, uma voragem, um de entremeio,

Uma casca entre o fora e o meu mais dentro.

Eis-me chegado ao tempo dos remorsos.

O longo correr-dor dos sonhos mortos,

O re-moer dos rasgos e dos cortes.

Um velho é um mar que foi, e hoje é deserto.

Palpar nas sombras, cada vez mais perto,

O caminhar sutil da Dona Morte.

Não há desespero, nem saudade, nem remorso. Embora fale em remorso, não é um remorso a quem a culpa condena. Aqui Viriato Gaspar pode nadar de braçada numa praia que domina e da qual é um dos melhores do Brasil, o soneto.

“Nada foi cheio”, “um fosco”, “um pé de vento”, “uma voragem”, pois o poeta sempre soube por intuição desde a tenra infância e em sua juventude pelo fazer poético que a vida seria assim mesmo: essa incompletude que o amor humano preenche pela metade. Embora seja a meta de uma vida inteira, o poeta sabe e poderia e diz como outras palavras, ninguém é pleno. Plena é a vida, mas a vida é além do que é humano e por sermos apenas humanos jamais poderemos alcançá-las: a vida e a plenitude.

Cumprir uma sina, realizar um projeto, é isso o que resta. E o nosso amigo Viriato Gaspar cumpre e realiza, não apenas este, mas sonetos e mais sonetos que o fazem ombrear-se com que há de melhor na língua portuguesa, neste mister que é a poesia, esta sim, plena e completa.

A FLOR SEM ASAS

Pensar em ti clareia as minhas sombras,

esparrama quintais pelos meus cílios.

Pensar em ti é resgatar um filho,

dado por morto, ao fundo dos escombros.

Pensar em ti às vezes é uma corda,

que vai puxar-me lá, onde esmoreço.

E se me amarga o azul, é o que me acorda

e me molha de um sol que nem mereço.

Teu nome é como chamo o que me aquece,

como digo luar quando escurece,

e consigo voar quando é só lastro.

O que é belo no mundo traz teu rastro.

Todo bem que consigo, e é diminuto,

fala de ti, é a sombra do teu vulto.


TAG