A AMPULHETA E O TEMPO!


“A distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente." (Albert Einstein)

Há alguns dias estou com uma ideia na cabeça para escrever sobre a ampulheta e mais precisamente descrever algo a respeito do tempo. Em todas as vezes que pensei, surgiram outros assuntos e tomaram frente, ao ponto de ter escrito mais de uma dúzia de crônicas e alguns poemas, que surgiram sem esperar e tomaram o lugar da ampulheta e do tempo.

Ela foi ficando para trás, postergada, preterida, menosprezada. Todavia, neste dia 12 de junho de 2020, dia dos namorados, a ampulheta se encontrará com o cronista e quem sabe se Deus permitir nesta data a imaginação criativa se ocupe de enveredar pelo tempo obscuro, possivelmente inexistente e fugaz, que os poetas tanto aclamam em verso e prosa, ora divagando, outra flutuando entre o imaginário e o real, sem, portanto, chegar a uma conclusão final sobre esse enigma criado pelo homem chamado “tempo”.

A ampulheta é, como o quadrante solar e a clepsidra ou relógio de água, um dos objetos mais antigos de medir o tempo. Também é conhecida como relógio de areia. Foi muito utilizada na arte para simbolizar a transitoriedade da vida. A morte, por exemplo, é muitas vezes representada como um esqueleto com uma foice numa das mãos e uma ampulheta na outra.

“A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!” (Friedrich Nietzsche)

Fiquei a me indagar: para que o homem precisava medir o tempo? Será que o tempo, não é apenas uma invenção humana? Diz-se que há noite e dia, porque existe luz e escuridão. Dizemos que o tempo passa porque envelhecemos. Será que o tempo não é apenas uma utopia criada para nos controlar? O que passa é o tempo ou a vida? Afinal, quem vive e desaparece é o tempo ou o indivíduo?

Na sua essência o tempo é algo parecido com o vácuo, uma impossibilidade, incerteza, indagação, fluidez invisível e abstrata. Se eu estivesse flutuando no tempo diria que sou uma pena leve e sensível, manipulada por uma energia extra-sensorial abduzida de uma atmosfera irreal.

Por que medir o tempo? Para provar que a vida é efêmera? A ampulheta assim com o relógio, e, tudo mais que pretende estabelecer uma passagem de algo sobre nós, não passam de ilusão. O tempo não existe, nós o inventamos para justificar a nossa temporalidade, o nosso limitado saber sobre as coisas, a nossa incapacidade de conhecer as profundidades do divino.

A nossa essência é a vida, sem ela não haveria o tempo. Portanto, o tempo nada mais é do que a busca de uma desculpa para justificar o impossível, o fantasma da eternidade e da imortalidade. Também, pode ser um limitador da liberdade.  

“A vida é apenas um Grão de Areia que escorre por essa ampulheta de falsas Liberdades! ” (Allan Edpo Trajano)

Para que serve a ampulheta e o relógio? Seriam instrumentos para apressar a vida e nos tornar cada vez mais submisso às obrigações e limitações? Gerar o estresse, o cansaço, o sono, a doença e consequentemente à morte. Qual seria a justificativa para nos apegarmos tanto ao segundos, minutos, horas, dias, meses e anos? Se a vida é um sopro indeterminado, que se apresenta a qualquer momento e surpreende o próprio tempo.

Nestes dias de confinamento devido à pandemia do coronavírus pude avaliar que o tempo é cada vez mais uma invenção decorrente das atribuições que cada um se propõe a realizar durante um dia, uma hora, um minuto ou segundos. Passaram-se dias e noites e sequer me preocupava em saber qual era o dia da semana, o que conseguia saber com exatidão era que existia dia a noite porque revezavam-se o sol e a lua, a claridade e a negridão, a hora de dormir e de acordar. Tudo isso, me leva a pensar, ainda mais fortemente que o tempo não passa de uma invenção humana para esconder a fragilidade, estabelecer rotinas, criar limites e tornar o homem escravo da sua própria debilidade e insanidade.

Alguns hão de ler o escrevo e não entenderão absolutamente nada, outros dirão que estou louco; os afortunados estudiosos e cientistas dirão que o que descrevo não tem comprovação cientifica; os poetas, cronistas, escritores, homens da arte entenderão perfeitamente que, o que faço, nessas linhas é deixar fluir a imaginação e externar tudo o que ficaria guardado sem gerar conflito, não fosse eu um pensador, um indagador, um questionador e, porque não dizer um desvairado tentando fazer com que os outros pensem diferente sobre algo que não sabemos o porquê.

Por que deveríamos perder tempo, se afinal o tempo não existe, o que de fato perdemos foi a oportunidade de viver intensamente esse momento fazendo alguma coisa importante, junto aos nossos familiares, amigos e pessoas que amamos com o propósito de justificar a nossa existência, enquanto dura. Porque o tempo se mede pela vida que passamos, não com ampulheta e relógio. Esses são instrumentos criados para nos iludir e desviar o nosso foco do que realmente vale a pena: viver intensamente cada segundo como se fosse o último.

“Faça do tempo uma ampulheta e aproveite cada grão de areia. ” (Felipe Cordeiro)

Você poderá não acreditar em nada do que eu escrevi acima, mas tenha certeza de que estou certo. Um dia desses você descobrirá que tenho razão. Como disse Richard Bach: “vê mais longe a gaivota que voa mais alto”. 
O que é mais importante é ser feliz ou ter razão? Medir o tempo ou ser feliz? Usar a ampulheta com areia ou um relógio de ouro? Se todos medem o inexistente, o que importa é ser feliz. O ilustre e saudoso poeta maranhense Ferreira Gullar disse certa vez que não queria ter razão, mas ser feliz. Eu também! 

Agora vou comer uma maça, alguns morangos, esfriar a cabeça confabulando com a minha eterna namorada, recarregar o meu coração de amor ao seu lado, talvez quem sabe degustar um vinho, beliscar um aperitivo e comer algo saboroso para encher a barriga enquanto a vida passa e o tempo não sai de onde está, neste dia dos namorados.

“Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro se chama amanhã, portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver. ” (Dalai Lama)

José Carlos Castro Sanches       

É químico, professor, escritor, cronista e poeta maranhense.

Membro Efetivo da Academia Luminense de Letras – ALPL

São Luís, 12 de junho de 2020.

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NOTA: Esta obra é original do autor José Carlos Castro Sanches, com crédito aos autores e fontes citadas, e está licenciada com a licença JCS12(2).06.2020. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas. Esta medida fez-se necessária porque ocorreu plágio de algumas crônicas do autor, por outra pessoa que queria assumir a autoria da sua obra, sem a devida permissão – contrariando o direito à propriedade intelectual amparado pela lei nº 9.610/98 que confere ao autor Direitos patrimoniais e morais da sua obra.

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