Comunicação Não-Violenta – O Elo para Conexões Saudáveis

01 - Homem Ser Gregário e Ser Social

Movidos pela necessidade de sobrevivência, os seres humanos, desde os primórdios da sua trajetória evolutiva, perceberam que em grupo se fortaleciam e venciam mais facilmente os desafios relacionados à sua subsistência. A necessidade de alimentação e de defesa em relação a ataques de animais e de outros homens, além das variações climáticas, fizeram com que o homem percebesse que era melhor andar em grupos, o que o caracteriza como um ser gregário.

Com o tempo, entretanto, de forma diferente de outros animais que também andavam em grupos simples ou mesmo complexos, como os das formigas e das abelhas, o homem começou a criar objetos e instrumentos, descobriu o fogo e estabeleceu regras de convivência, tornando-se dependente do convívio com outros seres humanos, ainda que alguns, em determinados momentos, ainda hoje, sintam a necessidade de algum tipo de isolamento. Eis a principal característica social do homem.

02 - Comunicação – elo de conexão

A forma humana de se comunicar também foi se modificando durante todo o processo evolutivo. Dos grunhidos à comunicação em massa via redes sociais, nossa forma de nos comunicarmos passou a ser considerada um elo de conexão entre os seres humanos.

Desde março deste ano, quando a OMS decretou a pandemia do novo vírus, temos atravessado momentos marcados por susto, medo, tristeza - com tantas perdas - e incertezas. Estivemos fisicamente isolados e muitos ainda o estão, o que requer ainda mais o estabelecimento de uma conexão saudável. 

O que já se percebia ocorrer nas últimas eleições para presidente no Brasil, entretanto, parece se apresentar ainda mais agravado diante do momento político atravessado atualmente, tanto no Brasil, como nos Estados Unidos. A nossa comunicação, na contramão da necessidade mencionada no parágrafo anterior, tem se apresentado cada vez mais violenta, pessoalmente e nas redes sociais, transformando conflitos em verdadeiros confrontos; fato que vem provocando divisões sociais entre amigos, colegas e até mesmo familiares.

“O conflito é a divergência de posturas. O confronto é a tentativa de anular a outra pessoa ou a outra perspectiva.” 

Mário Sérgio Cortella

Assim como acontece em uma negociação, numa discussão precisamos voltar nosso foco para o que está sendo discutido - o objeto da discussão. O grande problema não é a existência de conflito, que, como citou Mário Cortella, é a divergência de posturas, de opinião, de forma de pensar; o que pode ampliar nossos horizontes e nos enriquecer mutuamente.  Mas à má administração desse conflito pode transformá-lo em confronto. O equilíbrio emocional é fundamental nessas questões, e passa pelo reconhecimento dessa necessidade e pelo exercício de modificação de padrões automáticos de recuo, ataque, julgamento e críticas.

3 - Agressividade e violência

Quando falamos em violência, imediatamente nosso pensamento se volta a agressões físicas ou verbais; estas últimas, caracterizadas por ofensas, palavras de baixo calão e humilhação. Entretanto, a violência pode se manifestar por deboche, sarcasmo, menosprezo e ironia, de forma verbal e também não-verbal, de forma audível ou silenciosa, o que nos caracteriza como agressivos e violentos em certo grau. 

Marshall Rosemberg, psicólogo americano, PHD em psicologia clínica pela Universidade de Wisconsin e autor de livros como A Linguagem da Paz em um Mundo de Conflitos, O Surpreendente Propósito da Raiva e Comunicação Não – Violenta, dentre outros, fala, neste último, que a violência é “a expressão de uma frustação impossível de ser manifestada em palavras”. E isso se deve, em boa parte, às dificuldades que temos em identificar nossos sentimentos e em expressá-los. 

Tenho 53 anos de idade. Ao fazer minha autoanálise, vejo que aprendi, assim como muitos da minha geração, que devia pensar, seguir caminhos e adotar comportamentos ditados por meus pais, professores e, no ambiente de trabalho, por aqueles hierarquicamente superiores; isso era o certo a ser feito.  E ainda que eu não concordasse ou não achasse justo, me sentia na obrigação de fazer. Sob o aspecto pessoal, me casei muito cedo, sem quase nada conhecer do mundo e pensava que mesmo não me sentindo feliz, a vida era assim mesmo. No aspecto profissional, o que pesou foi a segurança; e abri mão de sonhos pela tão “necessária” segurança.  Eu não entendia meus próprios sentimentos, nem as necessidades por trás deles. 

O que não era “certo”, era “errado”; simples assim! É claro que havia exceções, mas boa parte dos que não seguiam o que supostamente era o certo, era considerada rebelde. Nossa comunicação era suscetível a críticas, julgamentos e castigos. Mais importante do que a forma como nos sentíamos, era como os outros viam nosso comportamento. Não fomos acostumados a falar sobre sentimentos, quiçá buscar entendê-los. Confesso que infelizmente ainda cheguei a replicar um pouco disso na criação dos meus filhos. Mas tudo foi se modificando a partir do desenvolvimento do meu autoconhecimento e da minha autorresponsabilidade. Essa autorresponsabilidade é que não permite que nos posicionemos como vítimas; pelo contrário, coloca-nos como autores responsáveis por escrever a nossa própria história. E foi assim, resumidamente falando, que dei uma verdadeira guinada na minha vida, aos 30 anos, quando decidi que a vida não ia passar por mim; eu é que ia passar pela vida, como autora e atriz principal da minha história! A partir daí minha comunicação começou também a se modificar; e foi se tornando menos violenta.

Comparações, críticas, deboches, sarcasmos e ironias, verbalizados ou demonstrados silenciosamente num contorcer da boca, num levantar de olhos ou em outras expressões de menosprezo são manifestações de violência. Ao praticá-las, tornamo-nos violentos. Isso me parece fazer total sentido.

Nas redes sociais, uma publicação feita em tom de brincadeira pode carregar injúria, calúnia e difamação. Por alcançarem um número infinito de pessoas, podem gerar consequências que atingem o psicológico das pessoas de formas diversas, como reclusão, mudança de cidade, afastamento de amigos e família, até transtornos mais graves e o suicídio. 

Infelizmente ainda vemos pessoas ressaltando sua autenticidade e sinceridade como justificativa para agredir outras pessoas verbalmente ou dizerem tudo o que pensam. Fazem-no pessoalmente, mas talvez nas redes sociais se intensifiquem, visto que temos a escolha de bloquear qualquer pessoa no momento que queiramos. Seriam tais atitudes demonstrações de falta de educação, arrogância, prepotência, desequilíbrio ou mesmo defesa, pois no momento em que ataco eu evito ser atacado? Ao refletir sobre a comunicação não-violenta, concluo que tudo isso seria julgamento da minha parte e que o melhor seria começar observando a situação sem criticar; bem como verificar se, ao publicar minhas mensagens,  compartilhamentos e comentários, eles não vão carregados de críticas, julgamentos, comparações e avaliações, pois, como já mencionamos, tudo isso é comunicação violenta. É preciso avaliar nossa linguagem, antes de agir por impulso.

“O impulso é o veículo da emoção; a semente de todo impulso é um sentimento explodindo para expressar-se em ação. “

 Daniel Goleman


4 - Comunicação não-violenta

“Sejamos a mudança que queremos ver no mundo”. 

Mahatma Gandhi.

A frase de Gandhi nos inspira; mas muitos de nós talvez nos perguntemos: como podemos fazer a diferença nesse processo? Defendo o autoconhecimento como a chave para o desenvolvimento humano. Conhecer a si mesmo - uma viagem que só tem ponto de partida – é fundamental para assumirmos a nossa parcela de responsabilidade, desenvolvermos a empatia e até mesmo a compaixão. Somos responsáveis por nossos pensamentos, sentimentos e atos. E podemos escolher desenvolver uma linguagem voltada à conexão saudável com os outros.

A empatia é uma das cinco habilidades que compõem a Inteligência Emocional, conforme Daniel Goleman. Para alcançarmos o verdadeiro significado da empatia, precisamos primeiro entender que aquilo que comumente chamamos de realidade, na verdade, é fruto da nossa percepção; e nós percebemos o mundo de formas diversas, em decorrência de passarmos o que captamos por meio dos nossos sentidos por filtros individuais que tem em sua composição nossos valores, nossas crenças, nossas experiências e muito mais.

 Para que nos expressemos de forma não violenta, segundo Marshall Rosemberg devemos tomar consciência de quatro componentes básicos a serem trabalhados:

Observação – voltar-se atentamente para a situação, sem julgar, avaliar ou generalizar;

Sentimento – entender como nos sentimos ao observar a situação e assumir a responsabilidade por esse(s) sentimento(s);

Necessidade – aceitar que por trás do que sentimos há necessidades a serem atendidas;

Pedido – expressar claramente ações que gostaríamos que fossem atendidas pelo outro.

Se queremos desenvolver uma comunicação não-violenta, precisamos conhecê-la e praticá-la, pois é a partir da prática que desenvolvemos nossas habilidades. Marshall Rosemberg ressalta que o desenvolvimento da comunicação não-violenta requer que nos expressemos conforme os componentes já citados e que também recebamos, com empatia, o que vem do outro, considerando os mesmos elementos. 

Podemos nos policiar em relação à nossa linguagem, ao sentimento que ela carrega, à necessidade que está por trás dela e ao que verdadeiramente queremos das outras pessoas. Da mesma forma, agir em relação ao outro, observando-o, buscando identificar o sentimento, a necessidade e o que ele verdadeiramente quer. Permeando tudo isso está a empatia e a compaixão. É simples? Claro que não! Mas qualquer pequena melhora é um passo a ser comemorado!

A partir do momento em que as pessoas começam a expor suas reais necessidades e ligam seus sentimentos a elas, buscando também a compreensão das necessidades do outro e os sentimentos que decorrem dessas necessidades. a comunicação tem chances de se tornar mais positiva. 


 “Se as coisas são inatingíveis... ora! Não é motivo para não as querer...

Que tristes os caminhos, se não fora a presença distante das estrelas!”

Mario Quintana


                   Diana Gaspar é Master Coach, Mentora, Consultora e Instrutora

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